O curso de medicina em poucas palavras

Removing Gloves, Oil on Canvas, 20 inches by 16 inches, By Joe Wilder, M.D., Dartmouth College '42 (1920-2003)Estudantes, vestibulandos, curiosos e até mesmo os próprios calouros de medicina geralmente têm muitas dúvidas a respeito do curso. Talvez por não existir muita informação disponível para quem está de fora da faculdade, ou pela diferença de grades entre as diversas faculdades brasileiras. Eu tive a experiência de entrar na faculdade de medicina um pouco cego sobre como funciona um curso universitário e sabia menos ainda sobre o curso médico em si.

O que aprendi com o tempo é que só fazendo parte do “negócio” se tem um completa dimensão de como tudo é organizado.

Vale a pena lembrar que a maioria das dúvidas que tentarei esclarecer eram dúvidas que eu mesmo tinha ao entrar no curso e que acredito que a maioria dos calouros de medicina também tenham. (As informações podem variar de acordo com a faculdade).

O curso de medicina é dividido em três partes: básico, profissional e internato.

No básico estudamos as disciplinas teóricas fundamentais da medicina como fisiologia, patologia, anatomia, bioquímica, farmacologia etc. Geralmente essas disciplinas são pagas junto com os demais cursos da área de saúde num campus coletivo. No caso da UFCG, onde estudo, como na área de saúde só existe o curso de medicina por enquanto, temos exclusividade com os professores.

São dois anos com carga horária integral, aulas pela manhã e à tarde, todos os dias da semana (excluindo o fim de semana, claro). É no básico que iremos criar a nossa base teórica para a prática médica e é esta base que vai diferenciar um médico de verdade de um mero técnico. Como costuma dizer um dos meus professores: “o básico é o alicerce da sua formação médica, faça um bom alicerce que os próximos passos terão onde se apoiar. Um alicerce fraco fará seu prédio desabar”

Durante esses dois primeiros anos temos pouco contato com a prática clínica. Por essa razão muitos estudantes se frustram com o curso, pois acham que não estão “estudando para ser médico”. É comum ouvir os calouros reclamando pelos corredores “Eu vou ser médico, não bioquímico, isso não vai servir para nada!”. Coisa de calouro mesmo.

A próxima etapa é o profissional. Agora nos mudamos para o Hospital Universitário e é aqui que começamos a nos sentir médicos de verdade.

A disciplina cartão-de-visita do curso profissional é a semiologia. Nela se aprende “como ser um médico”. A partir de agora já se tem contato com os pacientes, estuda-se as diversas práticas clínicas e cirúrgicas. Pagamos as disciplinas médicas propriamente ditas como cardiologia, pneumologia, endocrinologia etc. É no profissional que seremos formados futuros médicos generalistas.

Após dois ou três anos de profissional (dependendo da faculdade) vem o internato. Nessa fase do curso o estudante irá colocar em prática tudo que aprendeu durante esses duros anos de faculdade. Variando entre um a dois anos de duração, o internato consiste em um rodízio de especialidades médicas básicas, geralmente pediatria, cirurgia, ginecologia e obstetrícia e clínica médica. O aluno treina em plantões supervisionado por professores ou residentes do hospital.

Se o aluno planeja ser um médico generalista e ele conseguir passar por todas essas etapas, parabéns, agora é só comprar a beca e esperar pela formatura!

Mas se o aluno tem a pretensão de se tornar um especialista, não há tempo para descanso. O pior ainda está por vir, a prova de residência. Mas isso será assunto de um próximo post.

P.S.: essas informações são válidas para a UFCG, podendo variar em relação a outras faculdades, no entanto maioria segue esse padrão com pequenas alterações no currículo.

12 Comentários até agora »

  1. Elias disse

    am August 31 2007 @ 3:20 am

    Uma coisa que é interessante frisar é que calouro não sabe de nada 99% das vezes. Isso em qualquer curso. =)

  2. Carol Mello disse

    am August 31 2007 @ 8:36 pm

    Pods crer, Elias tem razão. Calouro não sabe nada em 99% dos casos. Só estando dentro do curso pra saber do que se trata de verdade.

    =)

  3. Zeh disse

    am September 2 2007 @ 1:06 am

    Texto muito bem escrito!
    =)

  4. Suely disse

    am September 2 2007 @ 9:03 pm

    Excelente o texto! Tanto pelo seu conteúdo, quanto pelo seu cunho informativo aos novos aspirantes. Somente discordo da observação feita no último parágrafo: “o pior estar por vir”. Pode, contrariando tudo que você disse, soar como um desestímulo. Porém, é claro que foi só um modo de expressar as dificuldades que vocês enfrentam no dia-a-dia do curso de medicina, tamanha a responsabilidade. Cabe a vocês, nova geração de médicos, lutar por uma maior valorização dessa profissão tão abençoada por Deus, mas tão esquecida pelos governantes que insistem em pagar salários míseros a todos os profissionais da área de saúde.
    Bjos.
    Suely.

  5. Victor disse

    am September 2 2007 @ 10:34 pm

    Gostei do texto ^^

  6. Antonio Alfredo disse

    am September 3 2007 @ 12:34 pm

    Daniel, parbéns pela sua iniciativa. O seu texto está muito bem escrito. Não sei se é do seu conhecimento que atualmente existe uma política de governo com ênfase na formação de médicos generalistas com o objetivo de suprir a carência do interior do pais. Embora o término do curso de graduação qualifique o médico para o execicio profissional, cada dia aumenta a demanda por profiisionais com uma pós-graduação. Creio que não vai demorar para que as secretarias municipais de saúde passem a exigir a especialização em clinica médica ou em saúde da familia para os futuros profissionais do PSF. O término do curso de graduação em medicina é apenas o primeiro grande passo de uma longa jornada de estudos.

    Antonio Nobre

  7. jorge guimaraes disse

    am September 3 2007 @ 2:21 pm

    vc a cada dia q passa me supreende.ja nao o vejo mais como meu pequeno sobrinho Diel.agora vc É DANIEL c personalidade propria,e logo vai se meu colega Dr Daniel.Essa sua iniciativa do site so mostra como voce leva a serio sua profissao e espelhar e q grande profional vc será

  8. Daniel Hortiz disse

    am September 3 2007 @ 4:21 pm

    Muito obrigado pelos comentários, fico muito feliz em saber que o site está agradando. Quando ao final em que disse “o pior estar por vir” não me referi à faculdade e sim a prova de residência que teremos que enfrentar depois de formados. É um processo de seleção muito mais competitivo que o próprio vestibular e a concorrência só tende a aumentar com a abertura de tantos novos cursos de medicina pelo Brasil a fora.

  9. Caio disse

    am September 7 2007 @ 5:06 pm

    Parabens pelo site. Conteudo interessante e escrito na sua linguagem. Quando leio, escuto sua voz marcante no pé do meu ouvido narrando as mais fabulosas epopéias e revolucoes diárias do mundo médico. São tao pitorescas que até fazem surgir em estudantes de exatas como eu uma fascinação talvez oculta e certamente idiossincrática pelas coisas do trato médico. Chega de sangue e bisturis, um abraço Caio.

  10. thiago disse

    am September 11 2007 @ 3:32 am

    Muito bom o texto, eu tinha essas dúvidas também no início do curso. Cheguei até a falar que não ser bioquímico pra aprender aqueles ciclos e tudo mais. Mas a gente aprende né? hahaha
    Muito bom o site :D

  11. Fernando Lopes de Siqueira disse

    am December 4 2007 @ 3:29 pm

    Gostei do texto, tanto para esclarecer as perspectivas do calouro com relação ao curso, quanto a interessados em cursar medicina….

  12. Luana Paniago disse

    am July 28 2008 @ 8:55 pm

    Esse texto me motivou muito. To em duvida sobre oq fazer. Valeu!

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